EXERCÍCIO FÍSICO E IMUNIDADE – PARTE 3: DOENÇAS AUTOIMUNES | Run Fitness Club

EXERCÍCIO FÍSICO E IMUNIDADE – PARTE 3: DOENÇAS AUTOIMUNES

Você sabe o que são doenças autoimunes?

Na Parte 1  da nossa série sobre “Exercício Físico e Imunidade” nós explicamos que o sistema imunológico funciona reconhecendo o que é próprio e o que é estranho (como vírus e bactérias) para o nosso organismo. Além disso, mostramos que ele possui estratégias para eliminar esses invasores e nos defender de doenças (como, por exemplo, a produção de anticorpos). Você também aprendeu que problemas no sistema imune podem resultar em imunodeficiências  e nos deixar mais vulneráveis a infecções.

As doenças autoimunes, por sua vez, são um grupo de doenças que têm em comum a produção de anticorpos contra componentes do nosso próprio corpo. Por razões ainda desconhecidas, o nosso sistema imune fica confuso e reconhece as nossas próprias proteínas como agentes invasores. Ele acredita, então, que nosso corpo está em perigo e reage, produzindo anticorpos e atacando a si mesmo. Assim, no diabetes tipo 1, por exemplo, ocorre uma produção inapropriada de anticorpos contra as células do pâncreas que produzem insulina, levando a sua destruição e dando assim origem ao diabetes. Já na artrite reumatoide, o corpo passa a produzir anticorpos contra as articulações, gerando dor e algumas vezes deformações. Dessa forma, é como se o nosso próprio corpo nos deixasse doentes!

Diferenças entre a resposta imune normal e a doença autoimune. Fonte: http://ericbakker.com/autoimmune-disease-treatment/

 

De fato, as doenças autoimunes são mais comuns do que você imagina: atualmente são conhecidos mais de 100 tipos diferentes de autoimunidades, que afetam mais de 8 milhões de brasileiros, sendo que aproximadamente 80 % dos quais são mulheres. A predominância do gênero feminino deve-se, principalmente, a um fator hormonal, pois a produção de estrógeno pode desregular o sistema imune e levar ao surgimento dessas doenças.

 

Na tabela abaixo apresentamos a você alguns tipos de doenças autoimunes e suas principais características.

­ Tecido/órgão afetado Sintomas Incidência/Prevalência Impacto
Artrite reumatoide Articulações, em casos graves, também órgãos internos. Inchaço e dor nas articulações, rigidez de movimentos. 1% da população mundial, mais de 150 mil casos por ano no Brasil Deformações graves nas articulações, limitação do movimento, maior risco de osteoporose.
Diabetes tipo 1 Células do pâncreas Sede excessiva, visão turva, perda de peso, fadiga. entre 5 a 50 casos a cada 100.000 indivíduos Cerca de 50%   dos pacientes acabam apresentando deficiência visual.
Doença celíaca Intestino delgado Diarreia, inchaço abdominal, gases. 2 milhões de pessoas no Brasil, mais de 150 mil casos por ano Desnutrição, perda de cálcio e densidade óssea, infertilidade, problemas neurológicos, câncer intestinal.
Esclerose múltipla Bainha de mielina (nervos) Tremores involuntários 5 a 130 casos para cada 100.000 indivíduos, 2,5 milhões de casos no mundo Perda de mobilidade (30% dos pacientes em cadeiras de roda).
Lúpus Pele, articulações, rins, cérebro, fígado, pulmões, etc. Fadiga, dores nas articulações, manchas na pele e febre. 30 e 100 casos para 100 mil indivíduos, 5 milhões no mundo todo 5% de morte nos primeiros 5 anos, por causa de complicações da doença.
Tireoidite de Hashimoto Tireoide Fadiga, ganho de peso, pele fria 2 a 5% em mulheres, 0,3 a 0,7% em homens, 7% dos casos são assintomáticos. Pode ocasionar câncer de tireoide e linfoma se não tratada.

 

De forma geral, os pacientes com doenças autoimunes apresentam alguns sinais e sintomas comuns, como cansaço, desânimo e mal estar geral, porém, a maioria dos sintomas, assim como a gravidade da doença, irá depender do órgão ou tecido afetado (como apresentado na tabela). Por exemplo, a tireoidite de Hashimoto afeta a glândula tireoide, destruindo-a e levando ao desenvolvimento de hipotireoidismo. A tireoide, apesar de importante, não é um órgão vital e as pessoas podem levar vidas normais apenas fazendo uso de hormônio tireoidiano. O lúpus, por sua vez, afeta muitos órgãos importantes, como rins, cérebro, fígado e pulmões, o que pode a tornar extremamente agressiva.

 

 

 

Mas como o exercício físico pode ajudar pessoas com doenças autoimunes?

 

As autoimunidades são, em geral, doenças crônicas, ou seja, uma vez instaladas, provavelmente farão parte de toda a vida do indivíduo. No entanto, seus efeitos e consequências mais graves poderem ser controlados com tratamentos específicos. Nos últimos dez anos, o exercício físico tem sido cada vez mais mencionado pela comunidade científica como um aliado não medicamentoso no tratamento dessas doenças. Ao contrário do que antigamente se pensava, a prática de exercícios de forma regular é imprescindível para portadores de autoimunidades, pois é capaz de regular tanto a resposta imune inata quanto a resposta imune adaptativa (ver Parte 1), além da secreção de hormônios. Além disso, as endorfinas liberadas durante o exercício são importantes não apenas pelo seu benefício em relação à sensação de bem estar, mas também pelo seu papel importante na regulação do sistema imunológico e no controle da dor, muito comum em alguns tipos de autoimunidades. Assim, por meio da atividade física moderada e regular é possível melhorar a aptidão aeróbia, a força muscular, a mobilidade articular, a aptidão funcional e até mesmo o humor, melhorando consideravelmente a qualidade de vida desses pacientes.

 

Como o exercício físico pode regular o sistema imune. Adaptado de: Sharif et al., 2018.

 

Se levarmos em consideração que existem mais de 100 tipos de doenças autoimunes, cada uma com diferentes quadros clínicos, limitações e gravidade, é difícil chegar a um consenso sobre qual o melhor tipo de exercício a ser praticado. No entanto, de maneira geral, atividades de alta intensidade, extenuantes ou que não respeitem o descanso adequado para o organismo, não são recomendadas para portadores de autoimunidades graves. Isso porque o exercício em excesso pode levar ao overtraining e assim sobrecarregar o sistema imune e desregulá-lo ainda mais.

A boa notícia é que o que se sabe com certeza é que equilíbrio é o segredo quando se trata do sistema imune e que a prescrição de treinos deve ser realizada de acordo com as características de cada doença e com as limitações individuais.            Para pacientes com artrite ou lúpus, por exemplo, estudos sugerem que, especialmente nos períodos de crise e de acordo com a gravidade das doenças, os exercícios isométricos (ação muscular sem alteração do comprimento do músculo) seriam os mais recomendados. Esse tipo de exercício gera menos inflamação e pressão intra-articular, o que poderia ser eficaz na prevenção da atrofia muscular e na minimização da dor. É importante, também, que estes indivíduos aprendam técnicas de proteção para minimizar a inflamação e o estresse nas articulações e que não realizem exercícios resistidos dinâmicos exaustivos. Para pacientes com menos limitações nos movimentos, exercícios resistidos dinâmicos com repetições para cada grupamento muscular devem ser realizados com intensidade leve a moderada.

No caso de indivíduos com diabetes tipo 1, estudos científicos comprovam que o exercício físico, seja aeróbio, de força ou até mesmo uma combinação dos dois, facilita a regulação da glicose. Isso ocorre porque o exercício é capaz de aumentar os transportadores que transportam a glicose para dentro da célula de forma independente de insulina (que não é produzida por esses indivíduos). Como consequência, a dose necessária de insulina para controle da glicemia pode ser menor.

 

Esses são apenas alguns exemplos de como o exercício pode ser um aliado no combate às doenças autoimunes.

 

O que é importante ter em mente é que ter uma doença autoimune não faz de você frágil ou incapaz. Como todo mundo, é importante apenas que você respeite os seus limites, encontre o seu equilíbrio e se exercite da maneira mais adequada para a sua realidade. Afinal, tão importante quanto praticar exercícios é respeitar o seu corpo e permitir uma recuperação adequada antes do próximo estimulo.

 

Assim, independente da sua condição física, controlar o volume, a intensidade e a recuperação entre as sessões de treino são a chave para que o exercício seja o seu aliado no combate e na prevenção de doenças.

Por isso, EXERCITE-SE!

 

            Para saber mais: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29108826

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